A CURA


Fui desde sempre, pelo menos desde a pré-adolescência, um assíduo frequentador das salas e consultórios de psicoterapia.

Hoje, vendo-me retrospectivamente, fico me perguntando o que teria acontecido se, prematuramente, tivesse sido, digamos, curado.

E o que me vem à cabeça é uma criatura sem graça, um burocrata feliz, um diligente pai de família, talvez um ortopedista insípido.

Assim, precisei sofrer, agudamente em alguns momentos, para não ser curado.

Não digo que não tenha pensado, frequentemente, em assinar com o diabo aquele pacto de troca da minha alma por uma vida ajustada.

Minha vertente contestadora (felizmente?) me fez refugar, na última hora, antes da assinatura fatal.

Em diversos momentos da vida tive a sensação de que o mundo não tinha sido feito para pessoas como eu e que, então, devia haver algo errado comigo.

Mas o que me fez sobreviver foi admitir a ideia de que o inverso poderia também ser verdadeiro, ou seja que o mundo poderia ele mesmo estar errado.

Foi muito difícil conviver aceitando como possíveis as duas alternativas.

Mas foi o que de fato aconteceu.

Dá pra conviver permanentemente tendo este paradoxo como sombra?

 

Texto na voz do autor:

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