INCAPAZ?
Não acreditando em mim, não consegui proteger-me.
A auto proteção talvez possa ser esmiuçada com a história de alguém, que jamais conseguiu incorporá-la totalmente e fazê-la parte constituinte do corpo.
Auto proteção é a capacidade de se proteger.
Sim, mas do que exatamente? Contra o que?
No meu caso, na origem, contra um mundo extra familiar.
A proteção natural, primária, familiar, teria que ser entendida e internalizada pela criança que eu era, como algo que gradualmente perderia força até sua necessária extinção.
A este processo de esvaziamento deveria corresponder, na mesma medida, a substituição da hétero proteção pela auto proteção.
No meu caso, por diversos motivos, a auto proteção entrou em crise: passei direto da proteção primária para a tutela, pulei a parte da auto proteção.
E a tutela, supõe, é claro, um incapaz.
Apesar do termo incapaz, em português, ser forte, tendo até uma dimensão jurídica, fui e me senti incapaz no sentido de “fora da curva”, em direção ao “anormal”.
Caso se considere incapaz como demasiado forte, aceito que possa ser substituído por tutelado, porém continuarei usando incapaz.
Fui considerado (e me considerei) incapaz de entender o mundo dos espaços extra familiares e impessoais, sobretudo da Escola, com seu sistema disciplinar e classificatório, de recompensa e punição, fundado no espírito de competição.
Desde que entrei, aos sete anos (poderia ter entrado aos seis) no primeiro ano do ensino elementar, me vi e fui visto como educacionalmente incapaz de acompanhar a escolarização regular, de entender o que estava fazendo lá, e o que deveria fazer.
A título de exemplo, jamais consegui entender e praticar a fila. Até hoje tenho dificuldades na matéria.
Tive uma sucessão de professores particulares, que colaboraram para minha incapacidade e para a correspondente necessidade de suplementos pedagógicos para-familiares com vistas a dar cabo das exigências escolares.
Tive-os até a entrada no ensino superior no curso de pedagogia, como resultado de um teste vocacional a que fui submetido.
A carreira de educador, que me foi atribuída pelo teste, para o homem daquela época, meados dos anos 60, tinha o sentido aproximado de: “tirando todo o resto, sobrou para ele essa carreira”.
Hoje, seria mais fácil, para um homem, escolher a pedagogia como seu curso de graduação?
Texto na voz do autor:

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