VELHICE ACOMPANHADA


 

Evidentemente, fica-se velho.

Num certo sentido, trata-se de uma situação cômoda; caso, é claro, as vicissitudes da condição material estiverem, como é meu caso, razoavelmente equacionadas.

Cômoda porque, olhando para frente, percebe-se que a incerteza que envenena as existências, de um modo geral, aproxima-se do fim com a eminência da morte.

Sim, com certeza, a morte é uma perspectiva de paz.

A velhice é cômoda também olhando-se para trás, porque pode-se fazer, impunemente, o que venho fazendo em todos estes textos, ou seja dar um sentido (e não outro) aos acontecidos, buscando destrinchar porque aconteceram e corrigi-los.

Envelhecer, sem buscar entender o que foi a vida que passou, é carregar o passado como castigo.

Em vez disso, colocá-lo na fôrma rígida de um discurso com pretensões lógicas e estéticas tem sido, para mim, o mesmo que absolver-me, ganhar o sossego do dever cumprido, ter sobrevivido.

Sem entrar no mérito da companhia, vivi, sempre, de alguma forma, acompanhado: hoje, aparentemente vivo só: por isso julguei imprescindível buscar companhia, tendo-a encontrado nos discursos e nas histórias com que venho construindo a pessoa que fui.

Como o jesus menino do Guardador de Rebanhos, temos, eu e esta pessoa, conversado muito, praticamente todos os dias, como dois seres afáveis, civilizados, tendo eu cuidado zelosamente de sua aparência e tendo ela, às vezes, reagido, mas nunca grosseiramente.

Tenho buscado ser seu dedicado terapeuta e ela tem, no geral, correspondido com suas falas; quando, por vezes, emudece, tenho procurado respeitar seus tempos.

Trata-se, contudo, de uma relação de trabalho, com horários a serem cumpridos. Por isso, despedimo-nos todos os dias para nos reencontrarmos no dia seguinte.

Tenho grande prazer em estar, até um pouco obcessivamente, todos os dias, esculpindo minha versão escrita.

E ocupando a velhice com este exercício de sublimação.

É claro que não me considero, nem de longe, passível de escultura; é só uma metáfora para o ato delicado de arredondar uma forma, aparar uma aresta.

Esforço-me para propiciar o melhor que posso para este meu ser escrito, com o claro objetivo narcísico de me ver espelhado numa forma prazerosa, longe dos vestígios obscenos do corpo envelhecido.

É claro que, para buscar beleza na velhice, é preciso fugir destas coisas lamentáveis, melancólicas e ridículas, que constituem os itens do pacote mercantil apelidado de saúde do idoso, destinado, como se isso fosse possível, conter a inevitável marcha para o fim.

Então se por acaso tropeço no idioma ou capengo na construção do parágrafo, estou me ferindo.

Narcisismo é, sempre, uma doença?

 

Texto na voz do autor:

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