EU E AQUILO QUE ESCREVE

 

Dividir-me em dois, o que acabei fazendo do modo que pude, não foi, é claro, mera operação matemática.

Foi defesa.

Não tinha a ver com os heterónimos de Fernando Pessoa, que foi, no entanto, desde que me entendi pré-adolescente até os dias de hoje, em todos os momentos da vida, um companheiro inseparável.

E, é claro, os heterónimos do Pessoa, salvo melhor juízo, são personagens, o que certamente não é o meu caso.

Nem existiram em mim duas facetas do mesmo ser, já que aquilo, como o nome indica, não é uma pessoa.

Na verdade, no começo e por um bom tempo, apenas eu permaneci existindo como corpo real, tendo a meu lado a entidade fantasmática denominada aquilo que escreve.

Ou, para ser mais preciso, aquilo que escreve o que pensa.

A pessoa que permaneceu da divisão era exatamente o descrente, objeto da hétero e auto desacreditação, aquele que a mãe considerava um bicho do mato, a criança problema, e que eu mesmo considerava mais ou menos como um equívoco circulante.

Tal pessoa também era vista, pelos outros com os quais convivia mais de perto, como um ser meio disconforme e, pela medicina psiquiátrica, como um paciente de saúde mental, etiqueta que acabou sendo transportada, da medicina para meu dia a dia.

O ser físico era o que dava a cara a tapa, o que apanhava da vida, o que estava ameaçado na sua integridade, o que agia impulsivamente.

Aquilo que escrevia e que pensava o que escrevia, no começo, antes de ganhar a vida pública e o estatuto de nome numa lista de bibliografia, era uma salvaguarda particular, algo que eu entendia como um valor, cuja utilidade era funcionar como contrapeso para o desvalor, que atingia a pessoa real.

Mas se é certo que era a minha pessoa física a que existia na realidade, não é menos verdade que foi aquilo que escreve que redigiu a tese de doutoramento, usando meu corpo (naquele momento atacado de pânico) como “cavalo”.

Todos temos um aquilo, seja o que for, dentro de nós?

 

Texto na voz do autor:

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