ACREDITAR-SE, DESCOBRIR-SE

 

Será sempre preciso acreditar-se ou mais exatamente descobrir-se, para sobreviver?

Não sei responder pelos outros, só sei que precisei, para suportar o descrédito.

Tinha que encontrar um valor em mim, para conviver, no mesmo corpo, com o desvalor.

Tinha que servir para alguma coisa.

Então, como indiquei acima, optei, desde a pré-adolescência, por duplicar-me, sabendo que não poderia escolher uma só e mesma identidade, como seria desejável, já que eu próprio estava convencido de que algo de inerentemente errado e não erradicável havia com a minha pessoa.

Mas optei por uma escolha, digamos, inadequada, ainda que fosse a única disponível.

Por que razão?

Basicamente porque, enquanto criança, não podia, verossimilmente, torná-la aceitável, ninguém daria muito crédito.

O que escolhi como resposta necessária para a inquietação essencial: será que sirvo para alguma coisa, foi: sei escrever ou, mais precisamente, sei colocar pensamentos em um texto escrito.

Caso tivesse outra habilidade como por exemplo, saber desenhar, saber fazer contas, ter talento para música, tudo seria mais fácil, conseguiria impressionar auditórios e salvar minha aparência.

Mas saber colocar pensamentos em texto escrito não é uma habilidade que uma criança de 10, 11 ou 12 anos, idade que eu tinha naquele momento, possa claramente reivindicar como sua e ser aceita pelo mundo adulto.

Ou isso não é verdade?

 

Texto na voz do autor:

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A FILA

A MORTE E A MULHER

UM SER PARALELO