VOLTANDO AO COMEÇO


 

Para entender o que estava fazendo quando, precocemente, percebi em mim a existência daquilo, penso que devo voltar ao começo.

Naquele momento, ainda pré-adolescente, e para me atribuir valor, estava criando um mundo à parte do universo onde reinava o descrédito.

Naquele meu universo podia determinar as leis, era um lugar do livre pensar.

Não estava querendo dizer nada ao mundo, só a mim, era meu próprio interlocutor.

Não havendo uma demanda externa a responder, as regras para meu pensar e meus escritos deveriam se ater apenas às definidas pela língua portuguesa e às exigências do pensamento claro e racional.

Lia bastante, especialmente Machado, Graciliano Ramos e Fernando Pessoa, que me ajudaram muito a pensar e a escrever o que pensava.

Acabei ficando, para sempre, com a ideia que pensar e por pensamentos no papel (e hoje nas telas) é o mesmo que se manter obediente apenas à coisa pensada em si e às regras do bom escrever.

Assim, sem ter muita consciência disso, estava optando pela desconformidade, aumentando as chances de insucesso caso minha opção fosse a de professor universitário e pesquisador.

E foi essa minha escolha profissional ...

... e a origem das significativas dificuldades que tive que enfrentar na carreira.

Mas quando, depois de muitas idas e vindas, acabei me efetivando como professor universitário, estava, muito graças a você, a caminho da auto aceitação e, assim, disposto a batalhar pelo que considerava um modo livre de pensar e expressar pensamentos.

Teria sucumbido se não tivesse batalhado.

Estava pessoalmente pronto para a briga, sentindo-me uma pessoa integrada; aquilo já fazia parte de uma pessoa e por isso já não era mais um fantasma.

Torre de marfim não seria um nome muito delicado para descrever o ambiente acadêmico, em geral?

 

Texto na voz do autor:

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