METAMORFOSES D’AQUILO

 

Para que se possa entender um processo, mesmo que mal sucedido, de produção da descrença e de um descrente, será necessário acompanhar o que acabou acontecendo, ao longo do tempo, comigo e com aquilo.

Defendida a tese e, sobretudo, tendo o livro “Medicamento como mercadoria simbólica” sido publicado, minha vida mudou. Aquilo começou, passo a passo, a migrar da região fantasmática onde estava alojado, para a realidade do corpo de uma pessoa.

Comecei a aceitar-me como sendo um ser que escreve e que pensa o que escreve, o que acabou por silenciar aquele corpo que vibrava uma pulsão de morte.

O indivíduo em pânico que, você, minha cunhada Sonia e a terapeuta Liane, entre outras boas almas, tiveram a humanidade de acolher, pôde abandonar o arsenal medicamentoso e ocupar-se de viver.

A seu lado, Ana,  passei a aceitar que a vida não precisa ser entendida como uma condenação, podendo ser simplesmente experimentada como uma aventura compartilhada, cujos obstáculos admitem soluções práticas ou, às vezes, engenhosas.

Seres como eu necessitam admitir que precisam viver o primado da auto aceitação, deixando em segundo plano a aceitação pelo entorno.

De fato, nunca fui completamente aceito, sobretudo pela Instituição na qual vivi mais de 20 anos. Preciso lutar contra um pedaço de mágoa a este respeito, que já me incomodou mais do que incomoda hoje.

Tento entender que a Instituição me testou, o quanto pôde, e que acabei passando pelos testes, que é o que importa.

Sartre tinha razão ao dizer que o inferno, sejam pessoas ou instituições ou as duas coisas juntas, são os outros? 

 

Texto na voz do autor:

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