A DOENÇA


 

Como suspeitava fortemente que havia algo de errado comigo, deveria haver alguma verdadeira doença na raiz de tudo.

Aí entra o pai (por quem nutria grande admiração e afeto) que foi um pioneiro da neuro-pediatria no Brasil.

Entra no quadro de um acidente de carro de que eu teria sido vítima, bem pequeno.

Tal acidente poderia ter gerado em mim, como sequela, a DCM ou Disfunção Cerebral Mínima, evento portanto claramente ligado ao pai.

Vivi o fantasma desta sigla a me atormentar.

Não me recordo de terem me falado do acidente, menos ainda da suspeita de ser portador da DCM. Provavelmente não falaram.

Até hoje, a bem dizer, não estou seguro de que tal acidente tenha de fato ocorrido. Suspeito que sim.

Então aquilo da DCM era um fantasma, mas sussurrado, sotto voce.

Seria muito bom se o fantasma tivesse se transformado em estigma, mas só lembro, vagamente, de falarem, a meu respeito, de uma “criança problema”. Minha mãe, mencionava, às vezes, um “bicho do mato”.

Lembro da infância como um conflito permanente entre a rua, espaço da liberdade, do movimento, do ar, do moleque, da turma, do futebol, contra o terror da lição, do espaço segregado da casa, do confinamento, do banho obrigatório, tudo sob a regência da tuteladora.

Aos nove anos, estando num acampamento de férias, livre do terror materno, passei um mês inteiro sem tomar banho, tendo por isso recebido o justo título de mis sujeira.

Caso tivesse sido um verdadeiro doente, portador atestado de um mal, a responsabilidade recairia sobre o destino, sobre o mal, afastando-se da minha pessoa.

Mas a doença era apenas um fantasma, algo de errado comigo, um estigma vagabundo à procura de um corpo.

E este corpo era o meu.

Pergunta para os entendidos, à moda de Margareth Thatcher: there is such thing as DCM ?

 

Texto na voz do autor:

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