A PERGUNTA
Desde cedo me vi atormentado por uma pergunta:
Tratava-se, no caso, de uma criança anormal?
Não... a pergunta não era exatamente essa, um tanto brutal, mas a temática de fundo era, sim.
A bem da verdade, sempre (se) soube que havia, a meu respeito, uma inquietação pairando no espaço, mas nunca (se) soube com clareza do que precisamente se tratava.
Apenas que havia algo no ar.
O meu drama particular é que tinha que dar resposta essa pergunta, mesmo não sabendo (desconfiava) exatamente do que se tratava.
Fiquei com esta dúvida para sempre, até os dias de hoje.
Mas como era preciso responder, fui levado a forjar algo que talvez poderia ser visto como uma resposta, mas que no fundo não era.
Na falta de um nome melhor, podemos chamar este algo de comportamento reativo.
Imagino hoje, é minha hipótese, que, ainda que de modo inconsciente, a criança que era, para enfrentar aquela dúvida pendente, operou um diagnóstico da sua família e de seu lugar nela, a partir da ideia de que o elemento estruturante da unidade familiar era um valor específico, a cultura, os livros, a intelectualidade, o conhecimento, a vida professoral.
E que este valor era encarnado pelo pai, em clara oposição à mãe, inconteste porta-voz e operadora da coerção disciplinar.
É claro que isto corresponde a uma descrição externa, artificial de um possível acontecido numa mente infantil primitiva, mas penso que ela pode ilustrar adequadamente uma realidade.
A partir deste diagnóstico, cabia, na cabeça da criança, e depois na do adolescente e do adulto, entrar na posse deste valor.
Mas esse entrar na posse era pensado, naquele momento, como coisa da ordem da fantasia, como um desejo que se realiza magicamente, sem necessidade de um caminho metodológico para acessá-lo.
Era experimentado como algo da mesma natureza do comportamento da rua, livre e espontâneo.
E então comecei a ler e escrever, por prazer.
Não haveria algo de necessariamente anárquico no ato de escrever?
Texto na voz do autor:

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