DESORDEM?
A fila é apenas um exemplo da minha dificuldade de lidar com tudo aquilo que vinha do exterior como ordem, a ser cumprida pela mera razão de ser o contrário da desordem.
De fato, fui vítima contumaz da existência em nosso idioma das palavras desordeiro, desobediente, indisciplinado, mas não havia em mim, naquele momento, nenhuma intenção subversiva, nenhum desejo de contestação da ordem vigente, apenas uma incompreensão radical dos motivos da sua arbitrariedade.
De desordeiro, desobediente e indisciplinado fui, gradualmente, passando para a categoria menos grave e menos passível de punição externa, de desorganizado, atributo que me acompanhou por toda a existência, até o presente.
Tentando ver em que consiste exatamente desorganizado, para confrontar com o ser efetivamente desorganizado que sempre fui, penso que o método indutivo seria, no caso, melhor do que o dedutivo.
Portanto, um ser desorganizado é aquilo que sempre fui, ou seja, alguém com um distúrbio na alocação de coisas no espaço e de ações no tempo.
Contas, por exemplo, são coisas a serem pagas num determinado tempo e documentos são materiais que deveriam estar guardados em determinados lugares localizáveis, como carteiras ou gavetas, mas tal não costumava acontecer comigo.
Deixei de localizar, por exemplo, minha carteira de identidade um sem número de vezes, o que, obviamente, só pode ser entendido como se referindo a alguém em conflito com a própria identidade.
Tive igualmente repetidos embates com as chaves, que também revelam com clareza um ser em desarmonia com os espaços onde habita.
Na verdade, examinando com olhos críticos todos estes meus traços, que envolvem palavras essencialmente negativas porque iniciadas por “in” ou “des”, constato que são descrições pejorativas, que não refletem a verdadeira realidade das coisas, mas só um perverso desejo de ordem, sombra má que acompanha o homem desde seu surgimento no planeta.
Qual seria um termo para designar o contrário da ordem, que não fosse desordem?
Texto na voz do autor:

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