UM SER PARALELO

Vivi uma relação ambígua com este meu jeitão: sabia da sua existência porque meus comportamentos, e os cuidados de tutela a que estava sujeito, eram indicadores dele.

Mas, de alguma forma, lutava contra.

Não para mostrar a impertinência do diagnóstico e sim para fazer existir algo como uma pessoa paralela àquela, na forma de um ser pensante.

Posso dizer que carrego, ainda hoje, restos deste ser paralelo, cuja história o presente texto busca resgatar.

Imaginando, naqueles tempos, a situação de uma pessoa vivendo à sombra de uma crise de pânico e em depressão, tendo tentado recentemente sumir do mundo na casa da mãe, redigindo, clandestinamente (da orientadora), uma tese de doutorado, só posso admitir que não se tratava da minha pessoa a que produzia a tese, mas de um outro ser, razoavelmente fantasmagórico.

Devo relatar que minha orientadora, quando descobriu a tese clandestina, teve fortes impulsos de me enxotar da universidade, só não tendo feito isso porque meu anjo da guarda conseguiu, não sei com que artes, convencê-la de que não se tratava, no caso em pauta, de um insano, mas apenas de um ser diferente.

De posse desta informação, a orientadora entrou em contato com um colega seu de confiança, ao qual enviou meu trabalho para que ele desse um parecer.

Com seu parecer favorável, consegui submeter a tese a uma banca de concurso que, com uma certa relutância, aprovou-me.

Tal aprovação fez com que minha vida mudasse de rumo, já que a pessoa paralela que me habitava encontrou, na universidade, um espaço onde podia viver uma existência não fantasmagórica.

Mas estive por um fio...

Pergunto: a academia, hoje, não acabou virando um espaço excessivamente regrado?

 

Texto na voz do autor:

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