O PRINCÍPIO DA REALIDADE
Mas, é claro, havia uma vida real pela frente.
A ser vivida sob o império da coerção, da disciplina, da repressão, em nome da mãe.
Porque havia de ser assim, não entendia e talvez nunca tenha entendido.
No espaço e no tempo cotidiano, a mãe reinava inconteste e o pai era aquele ser fugidio, habitante do mundo do trabalho, que chegava em casa.
E sua chegada era sempre vivida por mim como um momento de prazer.
É claro que havia flagrante injustiça nesta divisão assimétrica de trabalho, e um pacto secreto entre os dois, para que a mãe ocupasse o lugar da repressão, da disciplina e o pai o do afeto benfazejo.
Hoje estou certo de que esse papel de pedagoga repressora, para o qual minha mãe não era particularmente dotada, não perfazia, nem de longe, o que ela, como universitária e mulher culta, desejava para si.
Assim, seu fracasso pedagógico acabou sendo minha contribuição involuntária para envenenar sua existência.
Texto na voz do autor:

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