A UNIDADE ESTILHAÇADA

 

Busco o sentido do verbo estilhaçar para entender o que sobrou de mim, imediatamente depois da tua morte.

Conforme estilhaçar consta do dicionário, fragmentei-me, lasquei-me, despedacei-me.

Ou seja, vivendo este tempo todo com você, não aprendi a reunir-me porque você era o pedaço que me faltava, e como você se foi, o pedaço se foi com você.

Sobrou, portanto, um fragmento de pessoa.

Imediatamente não consegui fazer tal fragmento andar com os dois pés: abandonei-o, atirando aquela sobra enlutada de ser no sofá da sala.

Depois disso tentei compor para mim um novo ser na figura de um monge, vagando pelas ruas de São Paulo, como um velho hippie a bordo da bicicleta.

Não vingou, criatura do artifício, não fazia meu tipo.

Depois, não resistindo à insanidade, busquei te reencontrar em outro corpo de mulher e, claro, falhei.

Despedaçado, não consegui entender que, você faltando, reencontrar-me era única saída para conseguir soldar-me os pedaços.

Desacreditei novamente de mim.

Consegui apagar todo aquele seu trabalho minucioso de me impregnar de valor.

Recaí, mais uma vez, na busca da mulher cuidadora, esta incansável figura maligna a infernizar meu inconsciente.

Entendi que, ao longo de toda a vida, contribuí reiteradamente para a produção de um incapaz.

Consegui aprimorar um dispositivo interno, que era automaticamente acionado em todas as infinitas circunstâncias da existência que sugeriam uma oportunidade para manifestar minha incapacidade de proteger-me.

Estes tais dispositivos automáticos nossos são, sempre, sinais de alguma doença da psique?

 

Texto na voz do autor:

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