É PRECISO

 

É preciso é uma expressão brutal, uma violência, uma condenação que emana de um não sujeito, não sendo assim possível, por falta de pessoa, qualquer diálogo com a ordem aí embutida.

A língua portuguesa me ajuda a entender, hoje, que vivi a infância sob a tirania deste sintagma verbal autoexplicativo, componente obrigatório do meu universo infantil, visto ser a criança em questão incapaz de entender por que era preciso.

As demais crianças por acaso sabiam por que era preciso?

Imagino que sabiam, simplesmente porque aceitavam que era preciso.

Nunca aceitei.

Penso que carreguei, pela vida afora, esta inquietação metafísica, nascida lá naquele momento original.

Convivi sempre com a angústia de imaginar que devia haver alguma razão para o mundo ser tão necessário e imperioso, sem nunca ter entendido por que tal razão não me foi comunicada, como deveria, pelas instâncias superiores.

Tenho o sentimento de que, ao longo da vida, só eu não soube por que era preciso, por ter provavelmente vindo com algum defeito de fabricação, já que todos os demais seres humanos pareciam não padecer desta inquietação.

Mesmo não tendo conseguido, acreditei, firmemente, que era preciso ser como a maioria dos seres humanos que não se fazem jamais a pergunta: por que é preciso?

Por que seria?

 

Texto na voz do autor:

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