O MEDICAMENTO

 

Ter a si no controle pareceu-me sempre, ainda que inconscientemente, um guia da mais alta relevância para a vida, precisamente porque vivi, muito dramaticamente, a realidade da perda desse controle para a droga, lícita.

Então o medicamento, como objeto de reflexão, passou a fazer parte integrante de minha vida como pesquisador universitário.

Fiz dele meu doutorado e um livro, marcos fundamentais na minha carreira de professor.

Refletindo sobre o tema entendi que o medicamento pode ser, como a palavra fármaco, a venenosa mescla de símbolo e mercadoria, quando a ciência em sua grandeza e a saúde como fantasia se encontram disponíveis para o consumo na farmácia mais próxima, comprimidas numa pequena porção de matéria deglutível, como o corpo de Deus na hóstia consagrada.

Reparem nos filmes, quando os personagens usam medicamentos, que as pílulas são literalmente atiradas, num golpe rápido e num impulso, diretamente para o interior das gargantas: nos filmes ninguém consome medicamentos levando-os docemente à boca, num ato racional.

Daí que o chamado uso racional de medicamentos pode ser visto como um oximoro.

O medicamento, notadamente no âmbito da chamada saúde mental, implica, com frequência, a alienação do controle de si para o agente quimioterápico e deste para o agente social que o dispensa.

É preciso des-fetichizar o medicamento?

 

Texto na voz do autor:

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