MULHER MÃE VERSUS MULHER PAI
Minha mãe afetou, de diversas maneiras, minha relação com a mulher.
Por outro lado, a mulher sempre foi para mim uma experiência fascinante, um objeto de interesse, de investimento fantasioso.
Nunca fui macho-man, sempre tive asco daquela cultura de banheiro masculino de clube, da conversa regada a cerveja.
Aliás cerveja nunca me atraiu.
Tive grandes amigas mulheres.
Senti sempre horror da violência física, atributo masculino por excelência, mesmo daquela ingênua agressividade de recreio de escola.
Poderia ter sido gay, mas não tinha inclinação. Pelo contrário, sempre fui atraído pela sexualidade do corpo feminino.
Por outro lado, penso que, inconscientemente, busquei corrigir nas namoradas a versão que, na figura da mãe, trazia de casa. O que fantasiosamente buscava era, num certo sentido, casar-me com a ante mãe, ou mais psicanaliticamente, com uma verdadeira mãe não castradora.
Evidentemente tal proposta estava predestinada ao fracasso, como de fato ocorreu, não pelas mulheres serem castradoras, mas porque, cheias de razão, não se prestaram a desempenhar o papel de mãe suficientemente boa de seu parceiro.
Meu casamento que deu certo foi com a mulher-pai.
De fato, acreditando em mim, contra todas as evidências, você foi o que meu pai não conseguiu ser, talvez porque, meio tímido para essas coisas, nunca tenha conseguido verbalizar que acreditava em mim.
No fim de sua vida, precocemente abreviada aos 65 anos, na UTI do Instituto do Coração, comentando um artigo meu saído na Revista do Instituto de Medicina Tropical, acredito que meu pai tenha se dado conta de que seu filho talvez não fosse um caso de DCM.
Mas era tarde demais: a despeito de algumas recaídas, o filho já estava curado.
Será sempre preciso matar o pai para sobreviver?
Texto na voz do autor:

Comentários
Postar um comentário