UM TUTELADO

 


Penso que, comigo, a coisa toda se processou mais ou menos assim:

O ponto de partida foi a admissão da ideia de que a criança, por um conjunto obscuro de razões, não saberia como auto proteger-se, precisando, por isso, ser tutelada.

A tutela foi, então, um prolongamento extemporâneo e patológico da proteção primária: a família sentiu que não podia abandonar o incapaz, que precisava continuar protegendo-o. Mas já não podia fazer isso senão sob a forma de tutela.

Esta, por sua vez, concorreu para reproduzir, no tutelado, sentimentos e comportamentos típicos da incapacidade. Tais comportamentos foram fortemente sancionados pelo entorno social, basicamente pela escola, com punições disciplinares, mais ainda por se tratar de homem. Foram vistos como marcas de infantilidade, imaturidade, fraqueza.

Entre parênteses, a descrição crua deste processo, usando tutela e incapaz como descritores, esclarece adequadamente como as coisas se passaram de fato, que é o que importa. Mas, para efeitos externos, tratava-se apenas de uma “criança difícil” ou “problemática”.

Estou usando a ideia de auto proteção no sentido forte da expressão, para assinalar sua importância maior para minha vida na medida em que, ausente, significava falta de proteção no sentido preciso da não presença daquela nutrição física e afetiva, que é condição sine qua non para alguém existir.

A tutela, a partir de minha experiência de vida, foi experimentada não como uma modalidade de proteção, mas como um simulacro seu, anunciando permanentemente, pela sua mera e reiterada presença e pela sua fragilidade (como conseguir proteger o tutelado do mundo, fora do espaço restrito da casa?), o caráter faltante da verdadeira proteção e, consequentemente, a ameaça permanente da morte ou do abandono.

Incapacitado de auto proteger-me, fiquei, assim, vulnerável à vida, exposto à doença do mundo real, à maldição de ter que viver por conta própria.

Vulnerável à vida, em si, pode? Ou deveríamos reservar o termo apenas para as vulnerabilidades explicitamente socio-estruturais?

 

Texto na voz do autor:

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