OU VIRAR DOUTOR OU MORRER
Mais de quinze anos se passaram, e como o que quero entender – o tema da auto proteção - não leva a uma biografia, devo apenas resumi-los.
Foram anos de turbilhão:
Nesta altura, anos 70, casado de novo, tendo vivido quatro anos em Paris com uma bolsa de estudos; tendo aprendido muita coisa lá; tendo gerado três filhos; tendo me mudado para o Rio de Janeiro; tendo voltado para São Paulo para acompanhar a morte do pai; tendo entrado e saído da Universidade; tendo me dado mal num trabalho no Hospital das Clínicas; tendo voltado à Universidade; tendo abandonado o doutorado e tendo depois retomado; tendo desfeito o segundo casamento; tendo arrumado péssimas namoradas e tendo os filhos se mudado para a Europa atrás da mãe, não poderia ter passado tudo isso impunemente.
Entende-se facilmente então por que entrei no redemoinho de uma crise de pânico e tentei desistir in extremis.
Este era o ser com o qual você se deparou e decidiu resgatar, num movimento totalmente irracional e improvável.
Eu tinha pela frente, naquele momento, um desafio real, existencial e profissional: precisava virar doutor senão teria abortada minha carreira na universidade, e tinha que conseguir superar esta barreira na vida para me sustentar de pé, como pessoa.
E, para tanto, estava fazendo tudo o que não devia:
Um trabalho de tese inovador numa escola conservadora, com uma orientadora igualmente conservadora e autoritária, que não tinha ideia do que estava acontecendo nas suas costas.
Minha vida então, nestes anos, transcorria num mundo à parte, num universo paralelo, regido pelo improvável, destituído de qualquer coisa que lembrasse o bom senso.
Mas estavas lá.
Fui salvo, pelas tuas mãos e pela engenhosidade do destino.
No fim tudo acabou dando certo, doutorei, meu trabalho marcou toda minha vida profissional, virei gente aparentemente normal e as paralelas se encontraram.
Porque você acreditou em mim.
Mas teria você acreditado se o trabalho não tivesse valor, se fosse apenas uma questão de amor?
Texto na voz do autor:
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