METAMORFOSE
Para encontrar-me tive que metamorfosear-me em texto.
O que então sobrou do moleque de rua?
(É claro que não se trata de romantizar a infância do “oh que saudades que eu tenho da aurora da minha vida”).
O que preciso saber é o que aconteceu com a pessoa do moleque de rua, que foi expurgada junto com o processo civilizatório que me foi imposto.
O que sobrou?
Nada?
O vazio acabou ocupando o lugar deixado pelo moleque?
Pergunto: as demais crianças quando se civilizam transformam-se em pessoas-civilizadas?
Acredito que sim, mas talvez não tenha sido meu caso.
Civilizei-me (?) tarde e tenho dúvidas se virei uma pessoa-civilizada ou se ocorreu apenas uma modalidade de processo civilizatório, o sem-pessoa.
Não sendo radical, diria que, no meu caso, sobrou uma pessoa esmaecida, apagada, em segundo plano, para que, na superfície, pudesse vingar aquilo que escreve e que pensa o que escreve.
Mas, o que seria mesmo uma pessoa?
Acho que uma pessoa é aquilo que sobra de um ser humano, quando se extrai dele tudo o que a sociologia chama de papel social: de pai, filho, avô, pedreiro, general, puta, professor da usp e assim sucessivamente.
E aí o que sobra?
Uma resposta possível: um suporte corporal e psíquico onde os papeis sociais são inscritos?
Quem sabe.
Acho que são estes suportes as coisas que adoecem, sofrem, amam, odeiam, são felizes, magoam-se, entram em pânico, saem do pânico.
Pergunto então: apesar de não ter sido este o meu caso, seria possível reunir, numa mesma entidade, a pessoa e seu papel?
Tenho sérias dúvidas.
Texto na voz do autor:

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