A DIVISÃO
Difícil dizer como lidei com a tutela e com a produção da incapacidade que a acompanha, mas penso que encontrei uma solução, cujos restos ainda hoje se encontram presentes em algum recôndito da alma.
A solução encontrada foi a divisão: segmentei-me em duas partes.
Imaginava e aceitava a ideia de que, por um lado, havia algo errado na minha pessoa, mas, ao mesmo tempo, fazia nascer em mim uma parte externa como um sistema compensatório.
Poderia ter simplesmente duvidado da incapacidade, mostrar para mim mesmo e para os outros a natureza equivocada do julgamento sobre a minha pessoa.
Mas não foi essa a direção que tomei.
Havia, na divisão que me impus, uma força depreciativa: digamos que a incapacidade era vivida como interna, imanente, constitutiva do ser e da corporeidade, enquanto uma parte externa (ao eu) fugia do ser, refugiando-se no mundo imaginário da escrita, a configurar uma relação substituta fantasiosa, cujo sujeito era a cultura e o interlocutor a superfície textual.
Comunicava-me, assim, basicamente comigo.
Texto na voz do autor:

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