A MORTE INDIGNA

 

 

Trinta anos se passaram para o destino decidir, arbitrariamente, que você deveria morrer.

Três meses passados, desde o anúncio fatídico, foi o tempo necessário para que o câncer conseguisse corroer tua vida.

E noventa dias o tempo a nós destinado para que pudéssemos vivenciar o quanto de perverso a medicina pode nos reservar.

Com efeito, há modos decentes e indignos de morrer, e a nós coube experimentar o segundo.

A morte não é indigna, mas a medicina pode ser, e nos brindou com todo o horror de que um jaleco branco é capaz.

Percorremos inutilmente a via crucis dos sinistros corredores brancos dos hospitais da cidade, vendo as químicas vazias despejadas a conta gotas nas tuas veias cansadas, tudo para adiar, por uns dias, a morte anunciada.

Fizeram-me de idiota, a acreditar na vida enquanto você morria, cheia de dor, narcotizada e devagarinho.

Porque a roupa dos profissionais de saúde tem que ser da cor branca da morte, da falta de cor? Não poderia ser vermelha, violácea, cor de laranja, verde limão?

 

Texto na voz do autor:

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