ADOLESCÊNCIA


 

Tendo sobrevivido à infância, penso que consumi a adolescência junto a uma namorada, como um par de companheiros.

Casamos, com pompa e circunstância, e o casamento naufragou, tragado pelo dilúvio daquele ano de 68, onde quase tudo aconteceu no mundo, e também nas imediações da Vila Buarque.

Provavelmente não teria dado certo.

Estes casos de primeiro e único namoro, que acabou em casamento, com quatro filhos, os dois vivendo uma união de altos e baixos, como todo mundo, mas no final se acertando, amantes por toda vida, ele morrendo com 85,  ela, com 87, dois anos depois,  tudo isso era o roteiro.

Que, é claro, sendo coisa muito certinha, ficou no papel, com o diretor abandonando o set de filmagem e rolos de celulose atirados ao lixo.

Foi bom enquanto durou, não te parece?

Descobrimos junto, o sexo e o praticamos com a (pouca) competência que nos cabia, em segredo, na sala de visitas da tua casa, sendo este o primeiro de diversos sofás que mobiliaram minha vida erótica.

Muita cultura, muita cinemateca, muito teatro, muita música erudita, muito marxismo na farta biblioteca de teu pai, comunista da gema.

Entre parênteses, fico me perguntando se eles não desconfiavam do que acontecia, quase todas as tardes da década de 60, naquele sofá. Nunca saberemos.

Acreditei, sim, que formávamos um pacto de companheirismo e vivi aquele terremoto de 68 como um ato de deslealdade.

Tenho uma forte propensão a pensar os meus inúmeros desastres vendo-me a pé, melancólico, nas diversas ruas onde eles ocorreram, caminhando em direção a lugar nenhum, carregando o peso de um coração magoado, com muita pena de mim.

Naquele momento as ruas eram a General Jardim, a Dona Veridiana, a Maria Antónia.

Mas, devidas contas feitas, tendo sido eu quem decidiu acabar com aquele desvario, talvez tenha sido um raro momento em toda minha vida que consegui me auto proteger.

Valeu: não daria certo, de qualquer jeito.

Não sei se devo guardar um certo resto de mágoa ou se ponho na conta daquele ano de 68.

Que pensas?

 

Texto na voz do autor:

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