A MORTE E A MULHER


Muito mais tarde, quando do meu segundo divórcio, o clima na família era marcado pela ideia de que alguém que não era capaz de cuidar de si mesmo não podia dar-se ao luxo de se separar.

Este era meu contexto familiar, e os atributos que envolviam a minha pessoa por certo não me eram exteriores: também eu fazia parte de meu contexto.

Esta minha incapacidade, não importa se real ou não, foi se apossando da minha pessoa a um ponto tal que não poucas vezes flertei com a ideia de morrer como saída; acho que se não tivesse te encontrado realmente teria me dado fim.

Penso que hoje, do alto dos mais de setenta, vivendo só e tendo minha vida material de aposentado resolvida, consigo entender a radicalidade desta incapacidade de auto proteção que me acompanhou a vida toda.

Nunca me passou pela cabeça a alternativa de investir na auto proteção como uma forma de enfrentar minha malaise.

Sempre pensei num relacionamento afetivo com uma mulher como solução. Falhei em todas as tentativas salvo com você, que conseguiu acreditar em mim.

Mas depois que você se foi, tudo voltou à estaca zero: minha vida, por inevitáveis escolhas equivocadas, desandou novamente e a ideia de me fazer desaparecer retomou seu curso.

Quem não é capaz de se auto proteger está ameaçado de morte, porque vive a auto proteção como outro modo de apresentação da mesma proteção básica, do começo da vida que, se faltante, conduz à morte.

Esse era o pressuposto que me regia e que explica a presença constante, em mim, com mais ou menos força, da morte como horizonte e possibilidade.

Esta desconfiança e sua ameaça subjacente são razões que provavelmente explicam minha busca obsessiva da mulher como solução. A figura da mulher ocupava o lugar da mãe, cuja representação que formei é que inexistiu como portadora da função de verdadeira protetora, na medida em que assumia a de responsável pela tutela.

Papel importante nesta trama foi desempenhado pela professora particular (curioso e intrigante o fato de sempre ser uma mulher), presença constante na minha vida escolar e que representava uma interessante estrutura intermediária, por ser particular mas não da casa e pública mas não da escola (e as vezes da própria escola mas não na escola).

É possível sobreviver decentemente sem companheira ou companheiro permanente?

 

Texto na voz do autor:

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