A VALSA DAS ETIQUETAS

 

Para deleite dos sádicos, experiencias de horror na passagem de um antidepressivo para outro são facilmente encontráveis na literatura e nas redes sociais.

Naveguei mareado, por um bom tempo, estes tormentosos mares.

E dancei a valsa das etiquetas diagnósticas: disfunção cerebral mínima, psicose maníaco depressiva, doença bipolar mudando para unipolar, síndrome do pânico, ideação suicida, depressão endógena, apenas depressão, neurose de angústia, e dois prá lá dois prá cá, como na canção.

Quando você e seu comportamento fogem do comum, mesmo que discretamente, você passa a ser um potencial PSM (paciente de saúde mental) à espera de um etiqueta denominativa dentre as fartamente disponíveis no mercado dos rótulos, como condição para seu ingresso no mercado propriamente dito, no caso o médico/farmacêutico.

E quando você ingressa no campo dos PSM seu rótulo é sussurrado nos corredores, passando a fazer parte de sua identidade, junto com seu nome, sobrenome, cpf e rg.

Um PSM é um doente do espírito, diferente dos doentes do corpo. Ou um doente de Deus, para os que acreditam no espírito como coisa divina.

Doenças do corpo, quando o doente não se agrediu por uma vida desregrada, são responsabilidade dos próprios corpos de onde são originárias, mas com as doenças da mente a coisa é mais complicada.

Deixando de lado as reconhecidas unanimemente como graves, com origem no cérebro ou nos genes, nas doenças da mente são as pessoas que estão doentes; são, também e sobretudo, doenças da vontade, dos sentidos, das linguagens, dos discursos, dos sujeitos.

É preciso então resgatar a pessoa que se desencaixou de seu discurso, deixando apenas um discurso vazio, sem sujeito, no ar. Então no PSM há uma subjetividade, uma individualidade a ser buscada e a cura é encontrá-la.

Na minha vivência, o medicamento foi sempre um obstáculo na busca deste encontro, um passo atrás no processo: seu consumo silenciava o sintoma enquanto dor e sofrimento, esvaziando-o de sua energia enigmática.

Como conseguir lidar com a dor e o sofrimento preservando sua energia reveladora?

 

Texto na voz do autor:

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