O EPISÓDIO DA ESCADA
Um episódio daquela época é ilustrador da dificuldade de ser acreditado pela via da habilidade de escrever.
Naquela época, meus pais haviam decidido que eu devia ocupar minhas tardes vagas permanecendo (fazendo o que não estava claro para mim) recluso ou confinado a uma sala anexa à de um consultório de um psicoterapeuta, amigo da família.
Como eu havia escrito diversos textos a meu respeito, acabei apresentando-os ao psicólogo em questão.
E como ele achou que os textos revelavam a presença de um potencial escritor, decidiu apresentá-los a meus pais.
Para tanto foi marcada, em minha casa, uma reunião com ele e meus pais, para a apresentação das produções do filho.
Como ficou decidido que eu não deveria participar da tal reunião, na sala de visitas da casa, e como sabia que nela meu destino ia ser o objeto da discussão, refugiei-me, devidamente escondido no último degrau da escada curva que levava ao segundo andar, de onde podia ouvir o que, em voz baixa, era falado na sala.
E aí pude constatar que o psicólogo tentava convencer meus pais dos pendores literários de seu filho.
Tenho o sentimento que eles ficaram claramente surpreendidos com aquela revelação, mas se isso efetivamente ocorreu nada me foi comunicado, e tudo continuou do mesmo modo.
Havia uma crença muito forte na família de que eu era portador de um erro na minha constituição, e não seriam algumas folhas de papel que iriam abalar tal crença e impedir o prosseguimento da operação em marcha de desacreditação.
A cena, porém, me impactou, ajudou no redimensionamento da minha autoimagem.
As crianças de hoje são menos discriminadas?
Texto na voz do autor:

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